T A X I T R A M A S

26.11.08

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24.11.08

O caso das gremistas molhadas
Certa vez, o apresentador do programa CQC, Marcelo Tas, publicou na revista Superinteressante a seguinte frase: “Um taxista gaúcho escreve aquilo que a gente já sabe: os motoristas de táxi têm a receita pra consertar o mundo”. Marcelo Tas é uma espécie de guru da comunicação brasileira. Quem sou eu para contestá-lo!
Porto Alegre estava sob chuva torrencial, não se enxergava um palmo à frente do pára-choque. Nas imediações do Estádio Olímpico, duas garotas tentavam, em vão, conseguir um táxi – elas estavam encharcadas e os taxistas não queriam molhar seus carros. Apesar das gurias estarem fantasiadas de gremistas, parei. Elas embarcaram agradecidas e me explicaram a situação.
Contaram que tinham vindo da cidade de Caxias especialmente para assistir ao jogo, que estava prestes a começar. Como chegaram em cima da hora, não conseguiram entrar no estádio, que já estava lotado. Molhadas dos pés à cabeça, o que lhes restava era pegar o ônibus de volta para Caxias.
O caso das gremistas ensopadas era periclitante, mas elas deram sorte de entrar no táxi do cara capaz de consertar o mundo. Propus levá-las a um lugar onde poderiam tomar um banho bem quente, assistir confortavelmente ao jogo e, de quebra, colocar as roupas a secar. Despidas de preconceitos, elas aceitaram a oferta.
Deixei-as em um motel, que oferece aos clientes TV a cabo e serviço de lavanderia. Não contavam com minha astúcia!
Depois de terminado o jogo, como combinado, peguei-as no motel. A caminho da rodoviária, banho tomado, secas e felizes com a vitória do Grêmio, elas não lembravam em nada as meninas desesperadas que encontrei horas antes. Posso estar enganado, mas sou até capaz de apostar que, depois do jogo no motel, nasceu entre aquelas duas gremistas algo maior do que a simples paixão pelo Imortal Tricolor...

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17.11.08

Mãos ao alto!
Foi tudo muito rápido. Quando o assaltante puxou a arma, eu reagi por instinto, agarrei o cano, tentando afastá-lo de mim. O estampido seco ecoou dentro do táxi.
A bala saiu rasgando minha mão e seguiu rumo ao meu peito. Meus olhos arregalados registrando tudo em câmera lenta, quadro a quadro. Minha vida toda passou pela minha cabeça: a infância em Viamão, as brincadeiras, o colégio Marista...
O projétil perfurou a camisa, queimou a pele, penetrou em meu peito. Enquanto rasgava os tecidos musculares, minha vida seguia passando: a adolescência, as motos, a mudança para Porto Alegre, as namoradas... O sangue brotou logo, sinal que algum órgão vital tinha sido atingido.
Fiquei consciente ainda por algum tempo, o suficiente para ouvir o protesto do assaltante por eu ter reagido. Ele não queria ter atirado – agora, será procurado pelos “ratos da homicídios”. Bem feito pra ele.
O primeiro táxi, o casamento, a chegada da minha filha... Minha vida chegou até o que sou hoje: um taxista baleado. Lentamente, fui perdendo a consciência. A visão foi ficando turva, já não pensava em mais nada. Logo, tudo ficou escuro e quieto. Meu peito já não doía mais. Sozinho dentro do meu táxi, eu parecia ter chegado ao fim.
Foi quando algo me trouxe de volta: um beijo de mulher. Mais do que um beijo, boca-a-boca. Ela soprava ar para os meus pulmões. Um sopro de vida, literalmente! Em seguida, outras pessoas chegaram, ligaram para o Samu. O socorro estava a caminho. Ainda vi as luzes piscantes e a sirena chegando, mas já era tarde. A morte me alcançou antes. FIM.
Esta história que acabei de contar sempre me vem à mente quando sou assaltado. Aconteceu de novo nesta semana. O cara me apontou a arma e eu fiquei imaginando, em detalhes, o que aconteceria se reagisse. Eu sempre acabo levantando as mãos, é claro. Do contrário, não estaria escrevendo esta crônica.

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10.11.08

Passageiros e seus assuntos
O taxista que trabalha em ponto fixo acaba conhecendo bem seus passageiros. Quando o cliente liga, já sabemos o assunto que vai rolar durante a corrida.
Tenho uma passageira que só sabe falar das suas dores. Sequer cumprimenta o taxista. Antes mesmo de embarcar, ela se apóia na porta aberta, suspira fundo e começa a reclamar de alguma dor. É a Maria das Dores.
O Santana é outro passageiro obcecado por um único assunto: o seu carro. Ele tem um Volkswagen modelo Santana – segundo ele, o melhor carro do mundo. Passa a corrida toda falando do tal Santana, que tem isso, tem aquilo, que botou banco disso, direção daquilo. Ele já está no terceiro casamento. Troca a mulher, mas não o Santana.
A passageira esotérica é muito magra e usa uma tintura laranja no cabelo. Passa a corrida toda falando de terapias alternativas e pingando um líquido na língua com um conta-gotas. Dia desses, contou que está se submetendo a um tratamento que consiste em tirar sangue da veia e injetar na própria nádega (!). É ruim!
A evangélica só chama o táxi para ir à igreja. Passa a corrida toda pregando a “palavra”. Conta que quase ficou paralítica quando uma vizinha batuqueira lhe jogou uma bruxaria nas pernas. Foi quando nossa passageira teria aceitado Jesus no coração. Segundo ela, a “palavra” lhe curou. Desde então, tenta evangelizar os taxistas.
Mas o pior de todos é o Bira, um passageiro meio pancada que temos aqui no ponto. Acreditem ou não, o assunto preferido do Bira é as suas hemorróidas. Depois de anos sofrendo com o problema, ele acabou tornando-se um especialista no assunto. Técnicas de assepsia, banhos de assento, novos medicamentos... Ele sabe tudo! Desenvolveu até uma almofada especial com enchimento de ervas medicinais. Só vendo.
Ao taxista cabe dirigir e escutar, não mais que isto. Por vezes, sou capaz até de fingir interesse, como se estivesse escutando pela primeira vez o assunto.

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3.11.08

O passageiro das letras
Porto Alegre respira literatura. A Feira do Livro é uma excelente oportunidade para abastecer a prateleira com leitura de qualidade.
Eu sempre carrego algum livro sobre o painel do meu táxi. Em geral, exemplares de segunda mão, comprados nos sebos do centro da cidade. Nos momentos de ociosidade, de serviço em baixa, um livro é uma mão na roda.
Muitas vezes levo o livro aberto, no banco do carona, para ir lendo nas paradas de sinal fechado, tal é a ansiedade de chegar ao fim da história. Já deixei de fazer corrida por estar em um ponto empolgante de alguma narrativa. Os passageiros que esperem o desfecho do capítulo.
Dias atrás, embarcou no meu táxi um simpático casal de jovens. Notei que o garoto não tirava os olhos do meu livro, que levo sobre o painel. A menina, menos tímida, acabou revelando que seu namorado é sobrinho de um antigo passageiro meu, um famoso escritor que já morreu há mais de uma década. O garoto, então, pegou meu livro e procurou nele a página em que falo do seu tio. Aprovou o texto.
Lembro pouco das corridas que fiz para Caio Fernando Abreu – o teor dos diálogos não sobreviveu ao passar do tempo –, mas recordo perfeitamente que os livros sobre o painel me tornaram um taxista especial aos olhos do meu ilustre passageiro. Lembro que ele gostava de andar no meu táxi e queria sempre saber o que andava lendo. Talvez, eu o tenha decepcionado com meus Sidney Sheldon...
Alguns dias após a morte do Caio, encontrei, em um sebo, um exemplar em bom estado de Morangos Mofados. Lembro que esse livro habitou o painel do meu táxi por um bom tempo, como um farol, clareando o caminho para novas leituras. Desde então, abandonei os best-sellers importados. Passei a apreciar o texto mais curto, mais urbano. Uma prosa que tenha mais a ver comigo. Atualmente, procuro ler autores que tenham um jeito, digamos, mais Caio Fernando Abreu de escrever.

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27.10.08

A eleição que eu não vi
Eu ando cada vez mais desligado do mundo, que horror!
A assinatura que eu tinha de um jornal troquei por uma assinatura de banda larga – pelo computador se pode ler todos os jornais do mundo. Mas isso vem se mostrando inútil, porque tenho cada vez menos paciência para a Internet.
Minha tevê a cabo ando pensando em cancelar, pois quase não assisto. O controle remoto está coberto de poeira. Também não ouço notícias pelo rádio: meu novo táxi veio com um tocador de MP3 – minha filha me fez um CD com 1 milhão de músicas, ainda não consegui ouvir a metade.
Tudo o que sei do mundo é aquilo que vejo com meus próprios olhos.
A restrição da propaganda política nas ruas acabou com a “festa democrática” em nome da limpeza urbana. Tudo bem, aquela poluição visual era mesmo um saco.
O problema é que o processo eleitoral acabou virando uma coisa muito eletrônica, quase virtual. Tudo o que eu vi desta campanha foram poucos militantes mal pagos segurando bandeiras murchas pelas esquinas da cidade. Deprimente.
Sendo assim, não é de admirar que eu tenha esquecido que havia segundo turno no domingo. Minha filha que me lembrou! Acabei, às pressas, escolhendo um candidato na última hora, praticamente na boca da urna. Aliás, a urna já não tem mais boca, pois também é eletrônica.
O que salvou estas patéticas eleições foi uma velhinha (sempre elas), que embarcou no meu táxi e pediu que a levasse até o seu local de votação. Ela estava concentrada, não queria nem falar para não esquecer o número do candidato. Tudo bem.
Chegando lá, agradeceu e foi desembarcando. Quando lhe informei o preço da corrida, ela exclamou admirada:
– Ué, mas hoje não é passe livre?!

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20.10.08

As aparências (nem sempre) enganam
Dia desses, meu colega Rui pegou uma corrida para Cachoeirinha. Era um rapaz pobre com um boné enterrado na cabeça e óculos escuros. O passageiro foi o caminho todo se queixando do preconceito que estava sofrendo por estar mal arrumado. Disse que nenhum taxista queria fazer sua corrida.
Falou que também estava difícil conseguir emprego, pois tinha passagem na polícia. Argumentou que não era justo que as pessoas o discriminassem por isso.
Rui quase foi às lágrimas. Meu colega, comovido, pensou em seu filho, também jovem, também com dificuldade para encontrar emprego.
O final da corrida foi em uma rua sem saída de Cachoeirinha. Quando Rui parou o táxi, o rapaz puxou a chave da ignição e anunciou o assalto. Só quando viu o brilho da arma na cintura do bandido é que meu colega caiu na real. Aí, já era tarde.
A garota embarcou e perguntou se eu conhecia uma certa casa de prostituição muito famosa da cidade. Eu disse que sim. Ela, então, pediu que eu a levasse até lá.
Assim que partimos, ela tratou de esclarecer que não trabalhava na tal casa. Falou que sempre que vai até lá os taxista ficam lhe paquerando pelo retrovisor. Alguns chegam até a perguntar o preço que cobra pelo programa! Ela explicou que é representante de uma bebida energética e que vai lá a negócios. Que ficasse bem claro. Eu, hem?!
Algumas horas mais tarde, por coincidência, peguei dois turistas à procura de diversão. Lembrei da casa onde havia deixado a garota horas antes. Levei-os até lá. Depois que os passageiros desceram, o porteiro me pediu que aguardasse um minuto. Ele explicou que a casa estava precisando de um táxi. Eu levaria uma garota de programa que trabalhava ali para atender a um cliente em um hotel.
Alguém é capaz de adivinhar quem foi a garota que levei até o hotel? Quem pensou na minha passageira da corrida anterior acertou!

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13.10.08

Orgulho de ser taxista
Essa história conta como a vida ensinou meu colega Renatão a lidar com o preconceito por ser um taxista.
De uns tempos pra cá, Renatão passou a freqüentar bailões. Mais do que dançar, ele procura nos bailes uma dama que lhe amenize a solidão da viuvez. Foi em um salão do município de Alvorada que ele encontrou alguém que parecia ser a mulher certa.
Renatão disse que foi amor à primeira vista. Joice era o seu nome. Uma morena de cabelo curto e pele acetinada. A química entre os dois aconteceu já nos primeiros passos que deram pelo salão. Depois de dançar, eles sentaram e, entre uma cerveja e outra, trataram de se conhecer melhor. Tudo ia muito bem, até que a morena saiu com essa:
– Só existem dois tipos de homens com os quais eu não me envolvo, brigadianos (policiais militares) e taxistas...
Renatão engoliu em seco. Disfarçou sua decepção pedindo mais uma porção de batatas fritas. Inventou que trabalhava em uma empresa de transporte. Contornou.
Na hora de ir embora, deixou seu táxi no estacionamento e levou a morena pra casa em um outro táxi, que pegou em frente ao bailão. Depois de deixá-la em casa, voltou e resgatou seu carro.
Foi assim por mais alguns bailes. A cada novo encontro, a paixão aumentava. No fim da festa, Renatão pagava um táxi alheio. Até que, um dia, ele resolveu abrir o jogo. Contou toda a verdade.
A morena reagiu mal. Não aceitou ter sido enganada. Meu colega disse que deixou de freqüentar o tal baile por algum tempo, para ver o que acontecia.
Meses depois, quando a saudade apertou, ele voltou ao bailão de Alvorada. Encontrou a morena acompanhada. Nos braços de um brigadiano!
Desde então, Renatão faz questão de deixar sempre bem claro: é um taxista e se orgulha disto.

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6.10.08

Nem tudo está perdido
Meu colega Toninho trabalha há mais de 30 anos na praça. Já passou por poucas e boas. Bastam poucos minutos de conversa para que o calejado taxista desfralde uma quantidade incrível de casos passados ao volante.
Assaltos, ele já perdeu as contas. Toninho contou que, certa vez, foi calçado com uma faca quando descia a Avenida Protásio Alves. Não sentindo firmeza no assaltante, resolveu radicalizar: acelerou o táxi com tudo! Vendo que morreria espatifado em um poste, o bandido teria jogado a faca no colo do Toninho e se rendido. Loucura!
Pois, nesta semana, Toninho me chamou em um canto para me contar uma corrida que havia acabado de fazer. Ele estava emocionado e, cheio de cerimônia, disse que tinha sido um dos momentos mais “fortes” pelos quais já havia passado nos anos todos de praça. Preparei-me para o pior.
Contou que um homem embarcou no táxi acompanhado de uma criança de uns três anos. O passageiro estava indo até uma delegacia registrar o roubo do seu carro. Durante todo o percurso, Toninho conversou com o homem a respeito de violência e insegurança, enquanto a criança saracoteava no banco traseiro, alheia a tudo.
No fim da corrida, depois de dar o troco ao passageiro, Toninho disse que estava distraído, ajeitando o dinheiro, quando sentiu dois pequenos braços lhe envolvendo pelas costas. Enquanto o homem descia, sua filhinha abraçou meu colega por trás e deu-lhe um beijo na face! Toninho disse que ficou besta com aquele carinho inesperado.
Depois de receber um beijo de volta, a menina abriu um sorriso de anjo e se foi, mãos dadas com o pai, deixando o Toninho arrebatado de tanta emoção.
A violência sempre existirá, isto é certo. Os assaltos a táxi, por exemplo. Semana passada, perdemos mais um colega, vítima da estupidez humana. Mas é preciso acreditar que nem tudo está perdido. As crianças são a prova disso.

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29.9.08

Táxi - Manual do proprietário
Tenho recebido algumas mensagens de pessoas interessadas em entrar no ramo do transporte seletivo. Um pessoal completamente sem noção, que busca em mim informações sobre a profissão de taxista. Cansado de responder a essas perguntas, resolvi elaborar um manual prático para novos proprietários de táxi.
INTRODUÇÃO: parabéns, você acaba de adquirir um táxi, um produto de excelente aceitação no mercado. Antes de usá-lo, leia atentamente este manual.
PRÉ-REQUISITOS: saber dirigir. Essa é a única exigência fundamental, mas é aconselhável também que o proprietário possua muita paciência e espírito de aventura.
MODO DE USAR: não requer prática nem habilidade. Basta que você circule com o táxi pelas ruas da cidade, prestando atenção aos sinais dos pedestres.
ACESSÓRIOS: o táxi vem equipado com um dispositivo luminoso sobre o teto, que deve ser ligado à noite. Tem também um taxímetro, que deve ser acionado ao início de cada corrida.
SEGURANÇA: o proprietário do táxi não tem a menor segurança. Não é à toa que muitos taxistas penduram no retrovisor figas, rosários, pés-de-coelho etc.
CUIDADOS: o táxi é fabricado com peças grandes e resistentes. Quando jogado contra pedestres, pode causar a morte dos mesmos!
MANUTENÇÃO: recomenda-se atenção à lubrificação das dobradiças de portas. O entre-e-sai em um táxi é grande.
GARANTIA: não há garantia. Sua satisfação com o táxi depende, entre outras coisas, do seu esforço e do bom momento da economia.
ADVERTÊNCIA: o táxi é contra-indicado para preguiçosos, haja vista que seu bom rendimento é diretamente proporcional ao tempo que o proprietário passa ao volante.
No mais, é arregaçar as mangas e torcer para que tudo dê certo.

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22.9.08

A passageira do amor
Muitas histórias que escrevo são casos que ouço da boca de colegas, que, por sua vez, escutaram de outros. A praça é cheia de verdadeiras lendas urbanas, de personagens de origem imprecisa, que habitam a imaginação dos taxistas. Uma dessas figuras é a “passageira do amor”.
Ela seria uma mulher muito linda, de corpo escultural, sempre vestida com roupas muito provocantes, que embarca nos táxis sempre no banco da frente. Numa certa altura do percurso, tal mulher propõe pagar a corrida com amor. Com sexo oral. Ato libidinoso este praticado ali mesmo, com o carro em movimento.
Um dos taxistas que diz ter sido “vítima” dessa tal mulher é meu colega José Luis, o popular Biela. A história que ele conta é convincente e cheia de detalhes sórdidos, que vou tentar resumir aqui de forma publicável, é claro.
Ao dar o dia por encerrado, como de costume, Biela tocou em direção ao Hospital de Clínicas, onde pegaria sua esposa na saída do trabalho. No caminho, resolveu aproveitar para fazer uma última corrida. Era, justamente, a passageira do amor.
Exímia na arte da sedução, depois de breves carícias, a mulher teria sacado um preservativo da bolsa e efetuado o “pagamento” da corrida Avenida Protásio Alves abaixo. Consumado o crime, teria jogado a camisinha pela janela do táxi. Uma verdadeira loucura!
Estacionado em frente ao hospital, esperando sua esposa, Biela disse que se perdeu em devaneios. Quando se deu conta, um grupo de pessoas observava seu táxi da calçada. Entre sorrisos maliciosos, apontavam para a porta do carro. Antes que meu colega pudesse entender o que se passava, sua mulher chegou.
O casamento do Biela acabou naquele momento. Não é pra menos. Ele jamais vai conseguir explicar aquela camisinha, ainda gotejante, pendurada na maçaneta do seu táxi!

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17.9.08

Eu no museu

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15.9.08

Passageiros angustiados
Você é daqueles que divide suas angústias com o taxista?
Um homem embarca indignado. Ele saiu da oficina na qual está consertando seu carro importado. A peça avariada custará o olho da cara. O cara está inconformado com a quantidade de impostos embutidos no valor da tal peça. Conta que a maioria dos seus amigos manda dinheiro para o Uruguai, para fugir dos impostos brasileiros. Diz que está pensando em fazer o mesmo.
Uma mulher está indo à Polícia Federal para tirar seu passaporte. Ela pretende visitar o filho que mora na Inglaterra. Relata que o rapaz, formado em Engenharia Elétrica, foi contratado por uma grande empresa de telefonia, na qual alcançou um cargo de chefia. Depois de ganhar um bom dinheiro, o jovem largou tudo e foi para a Inglaterra estudar guitarra. Ela se declara orgulhosa do filho, mas não consegue esconder uma ponta de angústia quanto ao futuro incerto do músico.
Uma criança com cerca de dez anos embarca no táxi, auxiliada por seu pai. Ela é cega. Durante a corrida, o homem revela que está inconformado, pois não querem deixar sua filha participar de um campeonato infantil de judô. Devido à falta de precedentes de participantes com deficiência visual, a organização resolveu vetar a pequena atleta. Segundo o passageiro, o que mais lhe entristece é a pressão de outros pais, que temem ver seus filhos perderem para uma menina que não enxerga.
Corrida para a Rodoviária. O passageiro está indo para Bagé, onde seu filho reside. O rapaz está hospitalizado em estado grave. Os médicos desconfiam que tenha sido envenenado. Conforme meu passageiro, a principal suspeita do crime seria a sua nora, que, segundo alguns amigos do casal, teria prometido matar o marido. Durante a corrida, o homem dá a entender que estaria armado e seria capaz de um despautério se o filho morrer.
E por aí vai...

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8.9.08

Água que passarinho não bebe
Minha colega Vera é uma simpatia só. Verinha é uma taxista muito requisitada nas imediações do Colégio Rosário. Professores, pais, alunos, todos são cativados pelo jeito amável da minha amiga.
Entre seus muitos clientes, estão umas frerinhas que, volta e meia, chamam a Vera pelo celular. Preocupadas com a magreza da minha colega, toda vez que usam o táxi, as simpáticas irmãs trazem alguma coisinha para a Vera comer.
Dia desses, as Irmãs ligaram pedindo para minha colega pegar uma torta para elas em uma confeitaria. Vera deveria levar a encomenda ao endereço delas, na Rua Riachuelo. Combinado.
Quando chegou ao Centro, Vera deparou-se com a Riachuelo completamente congestionada. Como era só entregar a torta, ligou para as irmãs e pediu que elas esperassem na calçada. Fazia um calor terrível, o sol estava a pino.
De longe, Verinha avistou suas simpáticas clientes com seus hábitos brancos. Pressionada pelo trânsito, minha colega ligou o alerta, parou o táxi e passou a torta pela janela mesmo.
As religiosas agradeceram e, como de costume, passaram à Vera um embrulho com uns petiscos e uma pequena garrafa plástica, dessas de água mineral. Verinha, que estava morrendo de sede, agradeceu rapidamente e, empurrada pelas buzinas alheias, partiu veloz.
Na primeira parada que o trânsito deu, Verinha disse que pegou a garrafa, abriu e tomou um bom gole, no bico mesmo. Minha colega contou que foi como se uma bola de fogo descesse por sua garganta e explodisse em seu estômago!
Na correria, as irmãs esqueceram de dizer que a garrafa continha uma cachacinha especial, produzida no Interior do Estado, em um alambique próprio.
Vera, que não bebe nada de álcool, disse que passou o resto do dia chupando balas para tentar tirar o gosto de cachaça da boca.

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1.9.08

Histórias tenebrosas
Há algum tempo, perdemos, de forma trágica, um querido colega, o Pedrinho. Em uma atitude extrema, Pedro suicidou-se. Nosso colega conseguiu dar dois tiros contra a própria cabeça. Dois tiros! Mesmo o experiente legista do DML disse nunca ter visto coisa igual. Enfim...
No caminho para o cemitério, meu colega Ari, que foi de carona comigo, narrou uma outra história igualmente incrível. Contou que, certa feita, sofreu um infarto e foi internado no Instituto de Cardiologia. No meio da noite, apareceu um enfermeiro no quarto. O homem dirigiu-se ao meu colega, chamando-o de Breno.
O Ari, então, explicou que este não era seu nome, que Breno era o nome do seu irmão. O tal enfermeiro teria dito que era justamente ao irmão do Ari que ele estava se dirigindo. Disse que o Breno estaria ao lado da cama, cuidando do Ari. Meu colega falou que Breno, seu irmão, havia morrido fazia um ano... Na manhã seguinte, Ari disse que ninguém soube informar sobre o tal enfermeiro.
Chegamos ao velório do Pedrinho nesse clima. Matutando sobre os mistérios do sobrenatural. A capela estava cheia. Depois das condolências de praxe, Ari aproximou-se do caixão para uma última saudação ao colega. Eu preferi ficar ao longe.
Acontece que quando o Ari foi colocar a mão sobre a cabeça do finado, justamente naquele instante, seu telefone, que estava no modo vibratório, recebeu uma chamada. A vibração contra a perna do Ari no exato momento em que ele tocou a pele fria do defunto causou um choque tão grande em meu colega que ele deu um grito e saltou para trás. Na manobra, bateu com a perna no caixão, que por muito pouco não foi ao chão. Alvoroço geral no velório!
Com o coração à beira de outro infarto, Ari se mandou capela afora. Só para sacanear, perguntei se ele queria que eu o levasse ao Instituto de Cardiologia.

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25.8.08

Dez motivos para você andar de táxi
Primeiro - Você não andará por aí sozinho, falando consigo mesmo. Com um pouco de sorte, o taxista será alguém com quem você poderá trocar uma idéia.
Segundo - Caso você esteja acompanhado de mais duas ou três pessoas, a corrida de táxi pode sair mais em conta do que o ônibus. Creia.
Terceiro - Se você contabilizar o que gasta com gasolina, seguro, estacionamento, IPVA, multas e manutenção do seu carro, verá que o táxi é uma opção bem mais barata.
Quarto - Mesmo que você tenha só o dinheiro contado da corrida, ao chegar de táxi ao seu trabalho, causará a maior inveja entre os seus colegas.
Quinto - Visto que o preço de um bom psicólogo está pela hora da morte, você pode usar a corrida de táxi para uma rápida sessão de análise. Desde que o taxímetro esteja batendo, taxistas costumam ser ótimos ouvintes.
Sexto - Caso você desconfie que está sendo traído, saiba que o táxi é o melhor veículo que existe para perseguições. Só não envolva o taxista em confusão.
Sétimo - Se você está na cidade a passeio, o taxista poderá lhe dar excelentes dicas de hotéis, gastronomia e casas noturnas, sem lhe cobrar a mais por isso. A gorjeta é por sua conta.
Oitavo - Enquanto o taxista ocupa-se com o trânsito, com os azuizinhos, com os buracos, com os sinais e com a chuva, você relaxa, pede que ele sintonize uma música legal e se preocupa apenas em curtir a paisagem.
Nono - Você é uma pessoa prática, não tem tempo a perder procurando vaga em estacionamento, estudando itinerário, fazendo baldeação em ônibus. Para evitar tudo isso, vá de táxi!
Décimo - Caso todos estes motivos não sejam suficientes, leve em conta que ainda há a possibilidade de você aprontar alguma em MEU táxi e virar a história da próxima semana.

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20.8.08

Deu no Correio Do Povo
Coluna de Juremir Machado da Silva

"Que chato! A história insiste em me dar razão: é tudo plágio. Copiar é uma forma de arte, de política e de cultura. Só não copia quem não lê. O plágio é um direito universal. Não haveria civilização sem plágio. Desde tempos imemoriais, o plágio é praticado com êxito. Shakespeare era um grande plagiário. Escrevia as suas histórias a partir de histórias já contadas por outros. Tomava, porém, o cuidado de transformá-las em obras-primas. Nem todos são tão elegantes assim. A Globo plagiou para pior, num programa especial, o livro e a vida do taxista gaúcho Mauro Castro, blogueiro, cronista e autor de “Taxitramas”. Não pagou a corrida. ..Só quem é fraco paga royalties por plágio."
-- Juremir Machado da Silva é doutor em sociologia pela Universidade de Paris V: René Descartes.

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18.8.08

Uma ligação "distante"
Aconteceu em agosto. Em uma noite fria, chuvosa e escura, como só as noites de agosto sabem ser. Meu colega Sassá estava encolhido de frio, dentro do seu táxi, quando o telefone do ponto soou. Sassá logo reconheceu a voz no aparelho. Era seu Farina, um antigo passageiro do ponto.
Não era comum ele chamar táxi naquela hora da noite. Seu Farina era um senhor dos seus 80 anos, de saúde debilitada pela angina. Em geral, usava táxi pela manhã, quando acompanhava sua mulher às sessões de hemodiálise.
Ao telefone, seu Farina parecia distante, com uma voz ainda mais fraca do que de costume. Quando Sassá identificou-se, o velho lhe pediu um favor especial. Disse que estava em um velório no cemitério Israelita, pediu que o taxista lhe buscasse para levá-lo para casa. Combinado.
No caminho, Sassá começou a juntar as peças. Para seu Farina estar velando alguém àquela hora, com um tempo horrível daqueles, alguém muito próximo devia ter morrido. Como eram dois velhos solitários e a velha era muito doente, o mais provável é que ela tivesse falecido. Como os cemitérios, por motivo de segurança, estão fechando à noite, o pobre velho estaria indo descansar um pouco para voltar pela manhã. Coitado.
Já passava da meia-noite quando Sassá entrou pelo cemitério adentro. Os ciprestes molhados, sacudidos pelo vento, pareciam chorar as magoas daquela noite gelada - o que um taxista não faz por um bom passageiro. No fundo da alameda, a luz tênue da capela mortuária. Meu colega entrou com cuidado.
Ao lado do caixão, uma velhinha solitária chorava. Era a mulher do seu Farina! Ela levou um susto ao ver meu colega. Quando Sassá perguntou por seu marido, ela apontou com o queixo para o caixão.
O velho estava lá dentro, estendido, mãos sobre o tórax. Coberto de flores e mistério.

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11.8.08

Corpo de delito
Uma mulher, acompanhada de duas adolescentes, parou meu táxi. Muito nervosa, ela enfiou as gurias pela porta de trás do carro e embarcou na frente. Depois de lacrar a porta, mandou que eu tocasse, depressa, para a delegacia mais próxima. Valei-me, Deus!
No caminho, a situação começou a se esclarecer. A mulher havia brigado com uma vizinha. No meio da discussão, a outra tinha insinuado que as filhas da minha passageira já não seriam mais virgens. Minha passageira, por sua vez, havia afirmado que as filhas da outra é que já teriam sido defloradas (é claro que os termos usados por elas não eram assim tão comportados). Como a vizinha havia ido, com suas filhas, para a delegacia registrar queixa, minha passageira estava fazendo o mesmo.
Quando chegamos ao distrito, a outra parte envolvida já estava saindo - a tal vizinha também tinha duas filhas adolescentes. Minha passageira pediu que eu aguardasse, para levá-las de volta. Como aquela história estava interessante, concordei.
Não demorou muito, e a espera valeu a pena. O policial de plantão, provavelmente irritado com aquela pendenga, abriu um boletim de ocorrência e mandou a mulher para o Departamento Médico Legal realizar um exame de corpo de delito nas meninas, assim como havia feito com a vizinha e as suas filhas. O perito atestaria, ou não, a virgindade das moças. Toca para o Palácio da Polícia!
Na segunda parte da corrida, as duas garotas se calaram. Enquanto a mulher continuava inconformada com o que a vizinha havia dito das suas filhas, no banco de trás, as meninas trocavam olhares preocupados. Não demorou muito para que uma delas tomasse coragem e pedisse à mãe para desistir daquilo tudo.
Depois do choque, a ficha caiu e a minha passageira decidiu voltar para casa. O silêncio no táxi foi tanto que era possível ouvir aquele coração de mãe se partindo.

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4.8.08

Tolerância 10
Quando o passageiro veio em direção ao seu táxi, Ênio percebeu que o cara estava mais pra lá do que pra cá. A falta de direção no andar denunciava um certo grau de embriagues. Mas não era só isso. Aquele caminhar maneiro guardava algum outro segredo.
Assim que sentou no táxi, no banco da frente, as suspeitas do Ênio se confirmaram. Com um hálito de muitos whiskys, o homem pediu que meu colega aguardasse um momento, pois sua mulher e filhos já estavam vindo. Colocando a mão na perna do taxista, o homem explicou que estavam saindo de uma festa de formatura. Disse que não agüentava mais aquilo. A mulher que se despedisse de todo mundo, ele só queria dar o fora dali.
Como a conversa continuou e a mão não saiu de sua perna, Ênio começou a desconfiar qual seria o rumo da prosa. Não deu outra: com a língua enrolada e um olhar de peixe morto, o passageiro, sem maiores rodeios, perguntou se Ênio “transava homens”!
Se existe um cara paciente, este é o Ênio. Com a serenidade de um monge, meu colega disse que tirou a mão do passageiro de sua perna e tratou de frisar, com todas as letras, sua preferência heterossexual. Com isso, o homem alinhou-se no banco. Mesmo porque, sua mulher já vinha chegando ao táxi.
Depois de deixar a esposa e os filhos em casa, o homem seguiu viagem. Ênio deixou-o em frente a uma famosa sauna gay da capital. Enquanto acertava a corrida, o passageiro ainda perguntou se meu colega tinha mesmo certeza que não queria entrar e tomar alguma coisa com ele. Diante de mais uma negativa, o cara deu de ombros e se foi trocando as pernas.
A lei de tolerância zero ao álcool na direção está sendo saudada pelos taxistas. O serviço aumentou. Por outro lado, haja tolerância para aturar tanto bebum atazanando a vida de quem está trabalhando.

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28.7.08

Alerta vibratório
Sigo me adaptando ao carro novo. Nem tudo são flores, como se poderia imaginar. Nos primeiros dias de trabalho, a musculatura dói, devido à tensão com o novo equipamento. O rádio está fora do lugar, a maçaneta do vidro sumiu, o banco ainda não assumiu o formato do meu corpo. Isso sem falar no cheiro de novo que me atacou a rinite.
Se o carro antigo era um modelo básico, o atual faz o estilo árvore de Natal: cheio de luzes piscando e alertas sonoros. Se não afivelou o cinto, se tem porta aberta, se o gás está acabando, se a féria está curta, tudo tem luz piscando e alerta sonoro.
No primeiro dia, sofri com a trava das portas. Como se travam automaticamente, cada vez que parava para apanhar um novo passageiro, era preciso liberar o sistema. Isso sem falar no pisca- alerta, que precisava ser ligado, mas não estava no lugar de sempre, e no volume do rádio, que precisava ser diminuído de forma diferente. Enquanto isso, o passageiro ficava puxando a porta trancada.
Só lá pela metade da corrida, a coisa se normalizava. Trancadas as portas, afivelados os cintos, regulado o som, as luzes paravam de piscar. Quando, em fim, eu conseguia relaxar, notava que havia esquecido o mais importante: ligar o taxímetro. Putz!
Mas o dispositivo mais interessante do novo carro é um bipe, que avisa quando foi atingida a velocidade limite. Uma passageira, ao ouvi-lo, perguntou-me se era a bateria do meu celular acabando. Cheio de marra, informei-lhe que meu carro tinha um computador que informava toda a vez que eu excedia a velocidade de 60 km/h.
Ela não ficou impressionada. Disse que seu velho Chevette tem um sistema semelhante. Segundo ela, sempre que passa dos 60 km/h, as rodas do seu carro começam a trepidar numa espécie de alerta vibratório, que lhe obriga a tirar o pé do acelerador antes que o veículo se desmanche.
Eu só parei de rir quando notei que, de novo, havia esquecido de ligar o taxímetro...

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21.7.08

Histórias que não cheiram bem
Para quem está acostumado com os causos divertidos da praça, aviso que hoje, excepcionalmente, abordarei um tema pouco agradável: as "sujeiras" que pintam, volta e meia, no serviço de táxi.
Aconteceu comigo nesta semana. Estava no ponto, ouvindo um sonzinho, quando a passageira chegou. Era uma senhora idosa, bem vestida. Pediu licença ao embarcar. Trazia, em uma das mãos, uma sombrinha e, na outra, um pequeno pote plástico.
Ela explicou que precisava ir até um laboratório levar um "material" para análise. De imediato, olhei para o pote que trazia na mão. Como não estava embrulhado, podia-se notar que o recipiente continha fezes. Até aí, tudo bem.
O problema foi quando ela, atrapalhada com a sombrinha em uma mão e o pote em outra, pediu que eu segurasse o recipiente para que ela pudesse colocar o cinto. Sem chance! Pedi que esquecesse o cinto. Preferi correr o risco da multa.
Outro caso aconteceu com minha colega Sandra. Ela contou que fez uma corrida para uma madame que levava um cachorro ao veterinário. O bicho, apesar de enorme, era acostumado a andar de carro, ia quietinho, sentado no meio do banco de trás.
Acontece que, no caminho, a mulher pediu que Sandra aguardasse no táxi com o animal enquanto ela retirava dinheiro em um caixa automático. Foi quando minha colega descobriu por que o bicho estava indo ao médico: ele estava gripado.
O cachorro, com o focinho praticamente ao lado da cabeça da Sandra, deu um tremendo espirro, que fez voar baba para todo lado! Conforme minha colega, a passageira pagou a lavagem do interior do táxi. O duro, mesmo, segundo ela, foi tirar o cheiro de baba de cachorro do seu cabelo.
Conheço casos piores do que esses, mas prefiro não relatá-los aqui, em respeito à saúde estomacal do amigo leitor.

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14.7.08

Um novo casamento
Um taxista que adquire um carro novo, pelo plano de isenções de impostos, tem que ficar com o veículo na praça, pelo menos, por dois anos. Mal comparando, é como se fosse um casamento. A diferença é que, ao invés de contrair núpcias, o taxista contrai uma dívida no banco (não sei o que é pior).
Como em todo casamento, tudo começa com o namoro. O taxista precisa escolher o modelo de veículo que mais lhe apraz, aquele que mais se ajusta ao seu perfil. Grandes, pequenos, básicos, completos, sedan, perua, loira, morena. A felicidade conjugal depende, em grande parte, da escolha que se fará na fase do namoro.
Hoje em dia, as revendas, espertas, oferecem ao taxista a oportunidade de fazer um teste drive. Ou seja, antes de fechar negócio, é possível uma relação, digamos, mais íntima com o veículo - nos casamentos modernos não é muito diferente. O taxista sai dirigindo o carro, com um vendedor ao seu lado. Como um pai que quer desencalhar sua filha, o vendedor vai enumerando todas as qualidades do veículo, tendo o cuidado de omitir os defeitos, é claro.
Feita a escolha, é hora de consumar a união. Assinar a papelada. Uma verdadeira via crucis, que colocará à prova os nervos do taxista. Um emaranhado de carimbos, autenticações, cópias, certidões e taxas. Muitas taxas a pagar. Isso sem falar das greves, que retardarão ainda mais o processo. Greve da receita, dos Correios, dos cegonheiros, dos metalúrgicos. Haja paciência.
Acabo de passar por toda essa função. Troquei meu táxi. Ando trifaceiro, espalhando cheirinho de carro novo pelas ruas de Porto Alegre. Sei que essa alegria não dura para sempre, que, como em todo casamento, os primeiros desgastes na relação, as primeiras oficinas virão. Mas cada coisa a seu tempo, agora só quero curtir a lua-de-mel.

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7.7.08

Problemas no trabalho
Ainda amanhecia quando três passageiras embarcaram para a primeira corrida do dia - duas no banco de trás e uma no da frente, ao meu lado. Bem vestidas, faziam o tipo sensual. O clima entre elas não parecia muito bom. Estavam de cara fechada.
Logo que arranquei, a garota ao meu lado pediu que parasse o táxi, pois queria sentar atrás, junto com as outras. A conversa que se seguiu mostrou que ela, na verdade, precisava se explicar para suas colegas. A situação era a seguinte.
Elas eram três prostitutas de luxo. Haviam passado a noite em um motel com um turista japonês. Ao que parece, o cliente havia pagado uma boa quantia pela companhia das moças, mas nem tudo saíra como o esperado.
A menina que antes havia sentado ao meu lado, agora, tentava explicar às suas parceiras de vida fácil por que tinha começado a chorar no meio do programa, no momento em que foi acariciada pelo japonês - incidente que quase acabou com a noite e por pouco não suspendeu o pagamento a que tinham direito.
Segundo a moça, desde que foi desmascarada e acusada de prostituta por um padrinho seu, no meio de uma festa familiar, ela não conseguia mais ser tocada por homem nenhum, nem mesmo por seu namorado.
Por isso, explicou, havia passado um período afastada da boate em que trabalhavam. O programa da noite passada teria sido uma tentativa desesperada de retorno ao trabalho.
Comovidas com a história, as outras duas prometeram ajudá-la a superar o problema. Enquanto uma pegava no sono, a outra passou o resto da corrida aconselhando a parceira em crise e dando dicas de como ela devia proceder para voltar à velha forma. Tudo muito didático, muito esclarecedor. Uma terapia sexual no banco traseiro do meu táxi.
Ao fim da corrida, elas pareciam mais animadas. Confiantes de que noites melhores virão. Deixaram uma boa gorjeta e levaram meu cartão.

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3.7.08

Para quem quiser assistir
Esta é a chamada do programa Patrola, que vai ao ar neste sábado, dia 5, na RBS TV, às 11:30hs.
“O cara tem a melhor profissão do mundo pra descobrir histórias. E resolveu publicar todas elas num blog, que já virou livro e coluna de jornal. Ele é Mauro Castro, mais conhecido como o taxista blogueiro”.
O programa é longo e a entrevista comigo é curta, mas quem quiser assistir...
http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=1&contentID=26493&channel=45

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30.6.08

30 de junho de 1958
Só quando foi preencher o recibo que o passageiro lhe pediu é que o taxista se deu conta que aquele dia não era um dia qualquer. Ele, que sempre foi tão bom em guardar datas, parecia querer esquecer o que aquele dia significava. Era o dia 30 de junho de 2008. O amigo taxista completava, na data, 50 anos de trabalho!
O passageiro não entendia o que estava acontecendo. O velho taxista ficara imóvel. A mão, que preenchia o recibo, não se movia mais, parou exatamente no meio da data. Impaciente, o sujeito lembrou ao taxista que estavam em junho. Pediu que ele terminasse logo com aquilo. De posse do recibo, o passageiro foi-se, maldizendo a velhice.
Sozinho no carro, o taxista recostou a cabeça grisalha no apoio do banco, fechou os olhos e suspirou. Lembrava do primeiro dia em que sentara-se ao volante de um táxi. Recém saído do serviço militar, ele era um jovem à procura de emprego. Conseguiu uma vaga de chofer de praça, que era a expressão usada à época.
Em um Chevrolet 51, fez sua primeira corrida, do Bairro Azenha até o Mercado Público. Corria o ano de 1958. Dia 30 de junho. Exatos 50 anos!
Foi no táxi que conheceu sua mulher. Ainda trabalhando como empregado, montou sua casa e casou-se. Vieram os filhos. Tempos difíceis.
Mais tarde, ganhou as placas e comprou seu próprio táxi. Quando as coisas pareciam melhorar, veio a doença da mulher e a viuvez. Acabou de criar os filhos sozinho. Pagou-lhes até a faculdade com o dinheiro ganho na praça. Estão feitos na vida.
Ainda com o talão de recibos na mão, na solidão do seu carro, o velho taxista sentiu-se mais cansado do que nunca. Não havia muito a comemorar. Com os filhos morando longe, ele saía pouco de casa, tinha poucos amigos. O trabalho no táxi era o que lhe valia. Mas mesmo aquilo, agora, parecia não valer muito a pena.
Quando, finalmente, bateu arranque, foi para recolher o táxi para a garagem. Passou o resto do dia na companhia de uma silenciosa garrafa de vinho. Cinquenta anos é muito tempo.

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26.6.08

Lançamento do livro - Feira do Livro 2006

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23.6.08

Diário de uma taxista
A mulher, na calçada, fez sinal para o táxi da Sandra, para o que parecia ser só mais uma corrida. Ela trazia uma criança no colo e outra pela mão. A passageira embarcou com as crianças, no banco de trás, e fechou a porta. Quando minha colega foi arrancar, surgiu um homem correndo e postou-se na frente do táxi.
Sandrinha é uma taxista experiente. De imediato, trancou as portas e fechou os vidros. O homem, visivelmente alterado, queria embarcar junto na corrida.
Com alguma relutância, a passageira ordenou que minha colega abrisse a porta do táxi. Disse que o homem era seu marido, o pai das crianças. Se ele fazia questão, ela o levaria junto. Sandra, então, deixou o homem entrar. Ele embarcou no banco da frente.
Tão logo a corrida teve início, começou a discussão entre o casal. Algo a ver com a guarda dos filhos. As crianças, no banco de trás, começaram a chorar. A situação ficou crítica. A esposa, indignada, começou a botar os podres do marido para fora. Ela dirigia-se à minha colega, como se procurasse amparo para suas reclamações.
Em um determinado momento, o homem pediu licença para a taxista ao seu lado, virou-se para trás e, jogando o corpo entre os bancos, acertou um soco direto no rosto da mulher. Estabeleceu-se o pânico.
Por coincidência, no momento da agressão, eles passavam em frente ao Palácio da Polícia. Sandrinha não teve dúvida: jogou o táxi sobre a calçada, bem em frente à porta do plantão, e saiu correndo em busca de socorro. Os policiais detiveram o sujeito.
Sandra colocou-se à disposição da passageira para servir de testemunha do ocorrido. Constrangida, a mulher agradeceu, mas disse que não prestaria queixa do homem, pois o amava muito.
Sandrinha, minha colega do prefixo 2413, é uma taxista de muitas histórias. Esta é uma das que ela menos gosta de lembrar.

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16.6.08

Porto Alegre 4°C
O radiorrelógio liga: seis da manhã. É agora ou nunca. Com alguma dificuldade, consigo me livrar das cobertas que me abraçam. Lá fora, faz 4°C. O vento faz a sensação térmica despencar. Virgem Nossa Senhora!
Depois de um café encorpado, pego meus apetrechos e vou para a rua. Lá fora, o Moacir, meu motorista da noite, me espera passando o olho no Diário Gaúcho. Peço o jornal e confiro a página central: uma atriz da Rede Globo posa seminua. Com esse frio!
Vamos nessa. Preciso levar o Moacir em casa. Em frente ao Hospital São Pedro, o gramado está branco de geada. Uma fina camada de vapor paira sobre o terreno. Ao fundo, o velho hospital psiquiátrico parece ainda mais sinistro.
Deixo meu motora no alto do Morro Santa Tereza. De lá, a visão da cidade é surreal. A capital está coberta por uma densa neblina, só o topo dos prédios mais altos aparece. Digno de uma foto. Não tenho tempo, o serviço me espera lá embaixo.
Chego no ponto com o rádio anunciando 6°C. Três carros já estão na minha frente. Dentro deles, três colegas encolhidos de frio. Pego o pano e vou secar meu táxi, que dormiu na rua e está todo molhado de sereno.
Um mendigo, que passou a noite sob a marquise do prédio da esquina, acorda, saca uma garrafa de cachaça e começa um discurso. Parece irritado. Seu casaco se move na altura da barriga. Será que tudo aquilo é fome? Não, ele abre o fecho e tira de dentro da roupa um filhote de vira-latas. O bichano se espreguiça, cheira a roda dos táxis e faz xixi. Eu o espanto. Ele, então, volta para o mendigo, parece querer voltar para o ventre do dono.
Torço bem o pano e seco as mãos geladas. Já estou na ponta. Logo aparece a primeira corrida, os primeiros raios de sol...
O rádio anuncia nove, dez, 12°C. A manhã avança com o taxímetro batendo. O dia será longo e o inverno mais ainda.

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9.6.08

Uma corrida delicada
Eu dirigia distraído quando o passageiro fez sinal. Parei por instinto, nem sequer analisei a figura do homem que me atacava. Não costumo recusar corrida, mas, depois que parei, pensei que seria melhor que tivesse seguido em frente. Além de mal vestido, o sujeito estava sujo, barba por fazer. Duvidei até que tivesse dinheiro para me pagar a corrida.
Ele entrou apressado. Pediu que tocasse rápido para uma vila próxima dali, um lugar barra-pesada, onde taxistas costumam não entrar. Senti o drama. O que lhe dava certo crédito era o fato de estar carregando algumas sacolas de supermercado. Alguém que fosse assaltar um táxi não estaria com aquela carga.
Assim que acomodou as sacolas no chão, o homem me mostrou seus pulsos. Fez questão que eu visse os machucados deixados pelas algemas. Eram cortes cicatrizados, marcas feias, de quem deve ter resistido à prisão. Disse que já havia sido preso várias vezes. Falou que é ladrão e que não tinha problemas em falar, mas não aceita ser perseguido por algo que não fez.
Ele contou que estava no mercado fazendo compras e notou que o segurança do estabelecimento o estava seguindo - por causa da sua aparência, de certo, pensavam que ia roubar alguma coisa. Meu passageiro, então, disse que esperou um vacilo do segurança e lhe aplicou um soco na cara. O homem caiu nocauteado.
No burburinho que se seguiu, fez questão de pagar as compras para uma caixa apavorada. Divertido, contou que a menina tremia tanto que mal conseguia digitar os valores dos produtos. Para sua sorte, meu táxi apareceu antes da viatura da polícia.
Levei-o até a tal vila. Ele ainda exigiu que eu subisse um beco estreito, até onde o táxi cabia. Mostrou-me o barraco em que mora, no alto do beco. Disse que poderia procurá-lo caso tivesse algum problema naquela vila. Agradeci comovido.
Depois de me pagar, puxou um cigarro que trazia atrás da orelha, acendeu-o e se foi com suas compras. Somente então consegui soltar a respiração.

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2.6.08

O taxista e a suicida
A passageira já entrou aos prantos no táxi do Eliseu. Olhos vermelhos, lágrimas em abundância. Chorava convulsivamente. Meu colega ficou na dúvida se falava alguma coisa. Achou melhor deixar rolar. Ela, então, pediu que ele a levasse até a Usina do Gasômetro.
A corrida deu R$ 12. A mulher, entre soluços, entregou ao taxista uma nota de R$ 50 e mandou que ele ficasse com o troco. Eliseu, espantado com o tamanho da gorjeta, tratou logo de guardar a nota em sua pochete. Era fim de mês, o serviço estava fraco e aquele dinheiro vinha na hora certa. Mas a curiosidade falou mais alto e, enquanto a mulher descia do táxi, ele resolveu perguntar o motivo do choro e de ela não querer o troco.
Ela foi direta: disse que tinha vindo até ali para se jogar de cima da usina, para se matar! Dito isso, bateu a porta do táxi, girou sobre os calcanhares e partiu rumo ao suicídio.
Eliseu ainda pensou em não se meter. Era um taxista, tinha feito a corrida, ganhado uma gorjeta e fim. Não tinha nada a ver com o fato de a passageira querer se matar. Mas a mulher parecia decidida, e ele não podia ficar ali simplesmente esperando que ela se jogasse lá de cima. Além do mais, não parecia alto o suficiente. O máximo que ela conseguiria seria se machucar toda. Resolveu intervir.
Alcançou-a já no terraço da usina. Puxou-a pelo braço, trouxe-a de volta à razão. Tiveram uma longa conversa. O pôr-do-sol do Guaíba ilustrando o improvisado discurso do taxista sobre a beleza da vida.
Dissuadida da idéia, a mulher acabou voltando para o táxi. Eliseu levou-a de volta para casa e a fez prometer que não pensaria mais em besteira. Ao perguntar, pela última vez, se ela ficaria bem, o taxista ouviu um último pedido de sua passageira:
- Já que não vou mais morrer, será que o senhor poderia devolver meu troco?

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26.5.08

Estudantes em apuros
A estudante de Direito da Unisinos pegou meu táxi no campus da Ufrgs. Disse que veio à Capital apresentar seu trabalho de conclusão a uma banca de professores, mas estava nervosa demais. A menina estava pálida, suando frio, achei que fosse desmaiar.
Aconselhei que procurasse um médico. Ela falou que não precisava, que sempre ficava assim quando estava sob pressão. Pediu que eu a levasse até a Cidade Baixa, onde mora uma prima sua. Disse que tomaria alguma coisa para se acalmar e descansaria um pouco, até a hora da apresentação.
Deixei-a em um sobrado na Rua João Alfredo, onde sua prima já a aguardava na porta. Combinei de pegá-la dali a uma hora para levá-la de volta à Ufrgs.
Uma hora depois, quando tornou a entrar em meu táxi, a garota estava pior do que antes. Graças a uma dose cavalar de tranqüilizantes, ministrada por sua prima, minha jovem passageira ficara grogue, a ponto de não falar coisa com coisa. Estava sonolenta, mal conseguia articular as palavras. Tive que ajudá-la a afivelar o cinto de segurança. Sua apresentação deve ter sido, no mínimo, interessante de assistir.
Outro caso foi com uma estudante de Engenharia, freguesa do nosso ponto. Como trabalha à tarde, ela entra madrugada adentro montando as maquetes que precisa levar para a faculdade pela manhã. Com o sacolejar do táxi, as peças das maquetes costumavam descolar, pondo o trabalho a perder. Isso até ela descobrir uma cola que resolveu o problema crônico de aderência das maquetes: a cola de sapateiro!
Em uma manhã dessas, apareceu no ponto, maquete em punho, atrasada como sempre. Notei que havia algo diferente no seu caminhar. Quando entrou no táxi, percebi que seus olhos estavam vermelhos. Ela disse que estava muito louca, chapada mesmo. E que precisava largar a maldita cola ou, em vez de projetar pontes, acabaria morando embaixo de uma.

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19.5.08

A garota que esnobou Ronaldinho Gaúcho
Ronaldinho Gaúcho está com sua carreira no futebol em baixa. Os jornais apontam como culpados o excesso de festas, as más companhias, um desequilíbrio emocional pelo qual o jogador estaria passando. Há quem diga que lhe falte, na verdade, um amor.
Dia desses, em meu táxi, um passageiro me contou uma história incrível. Ele disse que tem uma vizinha que foi namorada de Ronaldinho, na época em que ele era apenas um jovem aspirante das categorias de base do Grêmio.
Segundo meu passageiro, o namoro tinha tudo para dar certo. A mãe do jogador fazia gosto, bajulava a garota. Ronaldinho, por sua vez, arrastava um trem pela menina, fazia todas as suas vontades, era só paixão.
Mas o coração tem lá seus caprichos. E a alma feminina, tão arguta, às vezes também chuta a bola pela linha de fundo. Acontece que a garota amava outro. Um rapaz bem mais bonito, segundo o passageiro que me contou a história. Assim, a menina seguiu a direção que apontava seu coração. Casou-se com o outro, alugou um barraco na Vila Buraco Quente e foi viver com seu amado - um esforçado instalador de TV a cabo.
O tempo passou. Ronaldinho tornou-se um milionário astro do futebol mundial enquanto a garota toca, como pode, sua dura vida na encosta do Morro Santa Tereza.
Meu passageiro contou que sua vizinha tornou-se fanática por futebol. Graças a um decodificador pirata, instalado pelo marido, não perde um jogo sequer do campeonato espanhol. Torce por qualquer time que jogue contra o time de Ronaldinho.
Agora que o sucesso do jogador dá sinais de já ter batido no teto, a garota da Vila Buraco Quente deve estar menos angustiada, menos infeliz com sua escolha.
Para ela, que apostou na paixão pelo marido, deve ser um consolo ver seu antigo namorado fracassando por falta de um grande amor.

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12.5.08

Dona Liná faz cem anos
Tenho uma passageira que está prestes a completar cem anos! A dona Liná. É uma baianinha simpática e faceira, que veio parar no Sul por caprichos do destino. Seus olhinhos ganham ainda mais brilho quando fala das suas memórias. Para quem gosta de uma boa história, é um prato cheio.
Ela me conta casos da sua infância, vivida nas fazendas do seu pai, próspero plantador de tabaco no sertão baiano. Explicou que as melhores folhas colhidas eram enroladas nas coxas das negras empregadas da fazenda. Reza a lenda que o suor das negras era o responsável pela alta qualidade dos charutos baianos.
Revelou também que seu gosto pela leitura vem da sua época de casada. Seu marido trabalhava com venda de livros na Bahia. Disse que o esposo fez um bom dinheiro vendendo livros a metro. Isso mesmo!
Falou que os coronéis, que faziam fortuna com o cacau, precisavam decorar as paredes dos seus gabinetes com livros. Para tanto, compravam tantos metros de livros quanto medissem suas estantes. O conteúdo das obras não importava muito. Quanto mais grossas e bonitas as lombadas, melhor. Por esse critério, meu livro fininho (menos de 1cm de lombada) seria um fiasco completo.
Ruy Barbosa é o escritor preferido de dona Liná. Ela ficou desapontada ao saber que nunca li nada desse autor. Falei que prefiro escritores mais atuais. Ela, então, perguntou se eu lia o "jovem" Humberto de Campos. Quando respondi que também não li nada dele, ela sentenciou, contrariada e sarcástica:
- Um escritor que não lê... Aposto que do Bocage você conhece bem a obra.
Assim é dona Liná, minha centenária passageira. Sua filha está preparando uma grande festa de aniversário. Espero ser convidado. Faço questão de ajudar a apagar essas cem velinhas!

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5.5.08

Ser taxista é...
Ser taxista é padecer no ponto da Valparaíso. É aguardar, por horas, um passageiro e aceitar, com um sorriso, quando ele diz: "É uma corridinha curta, hem!". É engraxar os pneus do táxi, deixá-los bem pretinhos para, em seguida, pegar uma corrida para a única rua embarrada da cidade. É deixar o carro limpinho, cheiroso e recebê-lo fedendo a cigarro do motorista da noite. É atacar-se da rinite quando aquela velhinha embarca com a roupa cheirando a mofo e naftalina. Ser taxista é suportar a fumaça dos escapamentos, a poluição do ar, o ruído das motocicletas. É dobrar o retrovisor do táxi para que este não seja quebrado pelos motoboys.
Ser taxista é contar a féria após cada corrida, na esperança que dê cria. É fazer a média de consumo cada vez que abastece. É sofrer para achar as moedinhas do troco daquela passageira que acabou de dar R$ 1 de esmola para o achacador da sinaleira. Ser taxista é fazer uma corrida para o outro lado da cidade e não pegar nem resfriado na volta.
Ser taxista é ser psicólogo, conselheiro, carregador de sacolas, guia turístico, consultor de moda ("O senhor acha que esse chapéu me cai bem?"). Ser taxista é não correr muito, ou ir mais rápido, porque o passageiro está atrasado. É ir pelo caminho mais curto, evitar os congestionamentos. Ser taxista é cair em congestionamentos. Ser taxista é tentar ganhar tempo avançando o sinal amarelo, retornando onde não pode, excedendo a velocidade. Ser taxista é ser multado.
Ser taxista é fazer calos nas mãos, sonhando com uma direção hidráulica.
Ser taxista é pendurar um rosário no retrovisor, é mandar benzer o carro, é fazer o sinal da cruz antes de engatar a primeira marcha do dia. Ser taxista é ser assaltado, perder a féria, o relógio, o celular, o táxi, ser humilhado, ter o traseiro chutado e ainda considerar-se um cara de sorte por conseguir voltar vivo para casa.

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28.4.08

Típica cena gaúcha
Um gaúcho ataca um táxi (só os gaúchos "atacam" os táxis). O táxi passa um pouco do gaúcho, pois vinha embalado, descendo uma lomba (só no Rio Grande do Sul os aclives chamam-se "lomba"). O gaúcho, então, corre até o táxi (tarefa ingrata para quem está usando chapéu, bombacha e botas).
O gaúcho embarca pela porta da frente (em Buenos Aires, tentei embarcar pela frente em um táxi e deparei com o cachorro do taxista instalado no banco. Ele explicou que leva o cão ali porque ninguém usa o banco dianteiro). O gaúcho embarca e apresenta-se, enquanto aperta a mão do taxista (um típico aperto de mão gaudério). Ele atrapalha-se para colocar o cinto, pois traz nas mãos uma garrafa térmica e uma cuia de chimarrão (desnecessário dizer que só gaúchos tomam chimarrão).
O gaúcho pede que o taxista leve-o até o Museu de Artes do Rio Grande do Sul (certa vez, um turista me disse que só os taxistas da capital gaúcha sabem a localização dos museus da cidade). Aliás, vale lembrar que essa cena, além de gaúcha, é tipicamente porto-alegrense, já que se passou em um "laranjinha" (apelido que os táxis de Porto Alegre recebem graças à sua cor).
O chimarrão do gaúcho estava curto como coice de porco (é sabido que gaúchos da Capital não sabem encilhar um chimarrão decente). Assim, para matar a sede, o taxista pede um mate enquanto espera que o sinal abra (gaúchos são os únicos que tomam água quente para aplacar o calor).
Da calçada, a cena é observada por um "azulzinho" (apelido dos agentes de trânsito da capital gaúcha). Ele fica na dúvida se multa o taxista, que está com a cuia na mão (o Código Brasileiro de Trânsito não prevê este tipo de cena). Acaba deixando pra lá, pois o taxista devolve a cuia antes que abra a sinaleira (farol, semáforo).
A corrida custa dez pilas (dinheiro gaúcho). O passageiro desce e o taxista aproveita para escrever esta crônica (taxista metido a escritor é outra invenção gaúcha).

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22.4.08

Taxitramas na tevê

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21.4.08

O caso do dinheiro sujo
Era um rapaz magro, óculos escuros. Vestia uma camiseta de mangas longas e uma bermuda comprida cheia de bolsos. Pediu que tocasse para o Hospital de Clínicas. Logo que partimos, pegou o telefone e iniciou uma ligação.
Começou falando calmamente. Disse que resolvera não esperar mais, que estava indo para o hospital. Falava em tom baixo, com a mão sobre o celular, talvez, na esperança que eu não ouvisse o que dizia. Falou que a "coisa" estava purgando, crescendo, espalhando-se, que, se continuasse daquele jeito, em breve, não poderia mais sair para a rua.
Com o canto do olho, eu procurava no rapaz algum sinal do problema ao qual ele se referia. À medida que a ligação se desenrolava, meu passageiro começou a irritar-se. Recusou a companhia da pessoa com quem estava falando ao celular:
- Você nunca está comigo quando eu preciso mesmo!
Esbravejou alguns insultos e, antes de encerrar a ligação, prometeu que, se a "coisa" fosse contagiosa, voltava a ligar.
Abri um pouco o vidro do táxi. Subitamente, o ar me pareceu carregado.
Perturbado, meu passageiro parecia distante. Balançava negativamente a cabeça, como se discutisse consigo mesmo. Notei que esfregava a virilha, como se a bermuda estivesse lhe machucando alguma ferida. O tal problema devia estar por ali.
Tive que avisá-lo que tínhamos chegado. Ele desculpou-se e começou a procurar o dinheiro para pagar a corrida. Primeiro em um bolso da bermuda, depois, noutro. Torci para que a grana não estivesse naqueles bolsos infectos. Infelizmente, estava.
Para meu desespero, ele puxou uma nota de vinte e me ofereceu. Minha imaginação fértil, às vezes, é um problema: a cédula me pareceu úmida, gosmenta, esverdeada até! Fingindo estar providenciando o troco, pedi que deixasse o dinheiro sobre o painel.
Com a ponta dos dedos, passei a nota ao primeiro pedinte de sinaleira. Espantado com a minha generosidade, o pobre homem sorriu e tascou um baita beijo no dinheiro.
Virgem Maria santíssima!

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14.4.08

Olhos negros como a noite
Minha passageira era uma mulher bela. Mesmo com visual discreto, usando um tailleur sóbrio, era impossível não notar o corpo bem desenhado que trazia sob a aparência executiva. Logo que embarcou, inundou o táxi com um perfume suave, certamente caro como a roupa que vestia.
Já era tarde, a noite avançava morna e abafada. Eu trabalhava além da conta. Como aquela corrida me levaria rumo ao meu bairro, aproveitaria a oportunidade para encerrar a jornada. Minha passageira também parecia cansada. Os cílios longos pendiam sobre seus olhos negros. Dois trabalhadores em busca do fim do dia.
Tudo aconteceu muito rápido. Um ou dois minutos. Para mim e minha passageira, no entanto, foi como se tivesse durado uma eternidade.
Eu havia parado o táxi. A mulher procurava na bolsa o dinheiro para pagar a corrida. Subitamente fomos surpreendidos pelo som de uma freada forte. De dentro de um carro, que parou atravessado em frente ao meu táxi, saltaram dois homens correndo.
Um deles ficou apontando uma arma em minha direção, exigindo que eu lhe passasse o dinheiro. O outro abriu a porta traseira e puxou a passageira para fora. Depois de lhe tirar a bolsa, o homem passou a revistá-la em busca de mais alguma coisa.
Foi quando a situação, que já parecia terrível, começou a ganhar contornos trágicos: não contente com o que havia pegado da mulher, o bandido passou a apalpar-lhe o corpo, insinuando que gostaria de levá-la consigo.
Um terceiro assaltante, que ficara ao volante do carro, começou a acelerar e gritar para seus comparsas. O homem que apontava a arma para mim correu para o carro gritando para que seu companheiro fizesse o mesmo. Por fim, os três partiram sem levar a mulher.
Depois do choque de violência, ficou o silêncio. A perplexidade. Os olhos da mulher me pareceram ainda mais cansados, mais negros que aquela noite abafada.

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7.4.08

Quem entende as mulheres?
O casal vinha discutindo calçada afora. A mulher, bolsa no ombro, caminhando rápido, quase correndo. O homem vinha no seu encalço, gritando, quase encostado no ouvido dela. Ele era forte, quase gordo, cabelo amassado como se tivesse acordado há pouco. Quando chegaram ao ponto, ele impediu que ela subisse no táxi.
Estávamos só eu e o Carlão no ponto. O carro da ponta era o meu. Fiquei na minha, eles que se entendessem. Mas o Carlão, ao meu lado, não parecia demonstrar a mesma calma. Vi que o sangue lhe subia à cabeça.
Enquanto o casal discutia, veio um passageiro e eu saí. O Carlão foi pra ponta. Temi pelo pior. Não deu outra. Mais tarde, encontrei meu colega todo lanhado, com cara de quem tomou chá de losna sem açúcar. Ele me contou o que havia acontecido.
Disse que a mulher havia apanhado do namorado, por isto, havia decidido ir embora. O homem não aceitava a decisão, gritava e a segurava pelo braço com violência. O Carlão, que assistia a tudo, foi ficando cada vez mais incomodado. Decidiu que, se a mulher resolvesse embarcar no táxi, ela embarcaria. Mesmo que, para isso, ele precisasse dar uns chega-pra-lá no namorado dela.
Foi justamente o que aconteceu. Quando ela se desvencilhou do namorado e correu em direção ao táxi, o homem agarrou-a pelos cabelos. Carlão disse que não pensou duas vezes: puxou o sujeito pela camisa e prendeu-lhe a mão na cara. O homem testavilhou e foi ao chão, o sangue já principiando a brotar na boca.
Parecia que seria mais fácil do que Carlão imaginara. O homem ficou acuado, não esboçou reação. Isso até a mulher partir para cima do meu colega aos socos e aos pontapés. Quando viu a namorada vir em sua defesa, o homem também partiu pra cima do Carlão, que acabou apanhando até dizer chega.
Ficou a lição: em briga de marido e mulher, taxista não mete a colher.

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31.3.08

Uma caixinha de surpresas
Eu já escrevi mais de uma vez sobre as coisas esquecidas/perdidas no meu táxi - desde os populares guarda-chuvas e carteiras até uma dentadura e uma cobra. Atualmente, encabeçam a lista dos mais esquecidos os escorregadios telefones celulares.
A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) tem um setor de achados e perdidos para onde os taxistas devem enviar os objetos deixados dentro dos táxis. Deve ter de tudo lá. Mas nem sempre é o caso de enviar o objeto à EPTC.
Dia desses, um colega meu achou no banco traseiro do seu táxi uma singela caixinha de fósforos. Como não fuma, jogou a caixinha dentro do porta-luvas e tocou em frente. Não pensou mais nela.
No outro dia, uma equipe da EPTC passou em seu ponto para fazer uma fiscalização de rotina nos táxis. Esse meu colega era o último da fila. Depois de vistoriados todos os táxis, os três agentes de trânsito que faziam o trabalho reuniram-se entorno do carro do meu colega para bater um papo. Foi quando um deles, puxando um cigarro, perguntou se ele tinha fogo. Prontamente, o taxista abriu o porta-luvas e alcançou ao agente a caixinha de fósforos que havia achado no dia anterior.
Muitos taxistas de Porto Alegre sabem o verdadeiro fim desta história, que foi muito comentada na praça. Caso você não conheça o caso, vou lhe dar três opções de final.
Final 1: o agente abriu a caixinha, tirou um fósforo e, ao tentar acender o cigarro, deu início a um incêndio no táxi do meu colega, que estava com o gás vazando.
Final 2: dentro da caixinha havia três comprimidos de Viagra. Todos caíram na risada, e meu colega é ridicularizado até hoje por conta do episódio.
Final 3: a caixinha continha várias pedras de crack, meu colega teve o táxi apreendido pelo agente e corre o risco de perder sua concessão.
A vida é mesmo cheia de surpresas!

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24.3.08

Rodízio de veículos, já!
Dia desses, fui convidado a participar de um programa da Rádio Gaúcha, o Polêmica, no qual se pretendia discutir o rodízio de veículos em Porto Alegre. Um projeto nos moldes do que já acontece em São Paulo. Meus colegas de debate eram o vereador que propôs o projeto, um diretor da EPTC (Empresa pública de Transporte e Circulação), um engenheiro e um advogado, além do apresentador, é claro.
Depois de uma emocionada explanação do vereador, defendendo sua idéia, começaram a falar os outros debatedores. Logo ficou claro que todos eram contra o projeto, inclusive o apresentador do programa. Senti que as esperanças do vereador de encontrar algum apoio recaíram sobre mim, que ainda não tinha falado. Menos por convicção e mais por implicância, resolvi ficar com a minoria: o vereador.
O diretor da EPTC falou que a solução do trânsito da cidade seria uma mudança de cultura quanto ao uso do automóvel. Ou seja, a culpa pelas tranqueiras seria dos cidadãos que só sabem andar de carro. Eu o chamei de romântico, no ar. Pegou mal.
Na verdade, ele está certo. O romantismo está em pensar que isso se dará pela conscientização espontânea. A mudança de cultura, infelizmente, tem que ser na marra, com medidas mais radicais, como, por exemplo, o rodízio.
Depois do programa, fiquei matutando e acho que vou apresentar uma emenda ao projeto do ilustre vereador. Em vez de um rodízio por final de placas, vou sugerir uma fórmula mais justa. Em minha proposta, o critério seria a COR do veículo. Para não dizerem que estaria legislando em causa própria, incluiria no rodízio, inclusive, os táxis!
Seria assim: de segunda a sexta-feira, só rodariam pelas ruas de Porto Alegre os veículos da cor laranja, com uma faixa azul na lateral. Nos dias restantes, circulariam os carros de outras cores. Perfeito!
Depois dessa, duvido que me chamem novamente para algum debate.

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17.3.08

Família, negócios e paixões
Celinho nunca quis trabalhar no táxi. Quando seu pai aposentou-se e foi morar na praia, deixou o táxi para ele, de papel passado e tudo. Queria que o filho tivesse como se sustentar. Celinho agradeceu, mas preferiu deixar um motorista trabalhando. Nunca sentou ao volante do carro.
O rapaz queria seguir a carreira artística. O táxi serviu-lhe para pagar a faculdade de Belas Artes. Foi na faculdade, aliás, que Celinho conheceu Suzi, balconista da cantina. Foi paixão à primeira vista. Depois de um rápido namoro, perdidamente apaixonado, Celinho resolveu convidar a garota para morar com ele. Logo em seguida, casaram-se.
A carreira artística de Celinho nunca decolou. Suzi, por sua vez, sem qualificação profissional, perdeu o emprego. Mas o casal vivia feliz e apaixonado, mesmo porque, no final do mês, o táxi pagava as contas.
Os problemas começaram quando o empregado de Celinho resolveu abandonar o trabalho no táxi. Uma mulher candidatou-se à vaga. Antônia. Ela era bem recomendada, trabalhava havia muitos anos na praça. Jamais havia batido um táxi e era boa de féria. Ficou com o emprego.
Negligenciando a recomendação de não misturar negócios com amizade, Celinho e Suzi passaram a receber Antônia na casa deles. Mais do que uma funcionária, a taxista tornou-se amiga íntima do casal. Íntima demais, aliás.
Quando sua pequena Suzi saiu de casa para morar com Antônia, Celinho entrou em parafuso. Não conseguia viver sem sua amada. Implorou que ela voltasse. A jovem impôs uma condição: voltaria com Antônia. Morariam os três juntos! Condição aceita.
Até onde sei, vivem felizes. Até mesmo a dificuldade de Suzi para engravidar foi contornada. Antônia terá que parar temporariamente de dirigir o táxi: está nos últimos meses de gravidez.

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13.3.08

Uma corrida para Portugal!
Os amigos do Taxitramas estão convidados a conhecer o Pnethomem, um site português onde 7 cronistas são convidados a escrever o que lhes passar pela cabeça - um autor para cada dia da semana. Dentre os aquinhoados com tal honraria está este humilde blogueiro que vos digita.
Para ler a íntegra das crônicas (e deixar um comentário, por favor) não é necessário cadastro.
Apareçam por lá!

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10.3.08

Memórias de um atrapalhado
O primeiro táxi em que trabalhei era um modelo Fiat 147. Famoso pela imprecisão do seu câmbio. A alavanca de mudanças era frouxa, o infeliz motorista tinha que achar as marchas meio na sorte.
Eu estava parado no ponto da Zero Hora, na esquina da Avenida Ipiranga. Uma passageira embarcou e pediu que eu voltasse pela mesma rua. Para isso, eu precisava atravessar o carro na entrada da rua, fazer a manobra e voltar. Esperei uma folga no trânsito e atravessei o carro na esquina. Mas quem disse que eu achava a marcha a ré?
Quanto mais os carros se acumulavam à minha volta e começavam a buzinar, mais eu ficava nervoso e menos atinava engatar a marcha. O suor escorria, o câmbio arranhava e a passageira dava sinais de abandonar o táxi. Por sorte, uns pedestres que passavam se compadeceram e empurraram o táxi para trás. Maior mico!
Já o meu colega Carlão contou que, no primeiro dia de trabalho, chegou ao ponto ainda de madrugada. A rua estava deserta. Ele percorreu todo o ponto e estacionou o táxi...no fim da fila. Virado na contramão!
Mais tarde, chegou um colega e parou no local correto, no outro extremo do ponto, junto à placa de embarque. Carlão disse que ficou frio. Esperou o colega sair. Só então, mais que depressa, manobrou seu táxi e colocou na ponta.
No ponto da Puc, em uma época em que quase todos os táxis eram Fusca, aconteceu que o Forquilha pegou um balde dágua e começou a lavar as rodas do carro do seu Pinho, pensando que era o seu. O verdadeiro dono do carro ficou quieto, observando o trabalho.
Somente depois de secar as rodas, quando foi pegar a graxa para passar nos pneus, é que o Forquilha se deu conta do engano. A essa altura, seu Pinho já havia avisado os colegas, que riam a não poder mais.
O atrapalhado feliz é aquele que consegue rir de si próprio. Eu, pelo menos, tento.

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3.3.08

A fortuna que eu ganho
A passageira mais linda do ponto embarcou no meu táxi. Uma morena de parar o trânsito. Em determinado ponto da corrida, sem mais nem menos, ela me saiu com a seguinte frase:
- Mauro, sabe que, uma noite dessas, perdi o sono por tua causa?
Bah, quase bati o carro! Virei-me para ela com o coração aos pulos, pronto para me declarar seu escravo, quando a morena tratou de esclarecer a questão:
- Eu tenho o hábito de ler para esperar o sono. Nessa noite eu comecei a ler o teu livro. Li uma, duas, três páginas. Quando vi, tinha chegado à última folha e o dia já amanhecia. Uma delícia, parabéns!
Outro relato gratificante foi o da Sara, que mora em Florianópolis. Ela comprou o meu livro pela Internet e escreveu o seguinte em seu blog:
"Chego do trabalho, morta de cansaço, hoje não foi um dia bom. Verifico minhas correspondências e que surpresa! Junto a três envelopes e a um jornal publicitário, lá está a minha encomenda! Oba!
Abro o pacote, observo o vermelho, o branco e as finas listras azuis, leio a capa, a contra capa, o verso, folheio rapidamente e não sei por onde começar...
Penso: qualquer página! Abro na 120, "Conforto espiritual", apesar do título ser duvidoso pro meu gosto literário e eu ainda estar em pé com os saltos comendo meus calcanhares, inicio a leitura. Quando termino, nossa! Foi isso que eu disse bem baixinho:
- Nossa!
Esparramo-me no sofá, leio aleatoriamente pelo menos mais umas quatro páginas e acabo atrasando o jantar... Divertido e inteligente - Taxitramas, diário de um taxista, de Mauro Castro - acertada aquisição."
Quando me perguntam se ganho alguma coisa com meus escritos, costumo dizer que sim, que sou regiamente remunerado. É que, para mim, depoimentos como esses valem uma fortuna.

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25.2.08

Em busca da verdade
A passageira embarcou apressada, perguntando se eu conhecia um certo motel da Zona Sul da Capital. Pediu que eu tocasse para lá, o mais rápido possível.
Estava visivelmente tensa. Quando seu celular tocou, ela levou um susto.
Sua conversa ao telefone começou a esclarecer a situação. Ela estava indo ao motel dar um flagrante em alguém. Antes de encerrar a ligação, falou que não queria testemunhas, que queria apenas ver com seus próprios olhos e ponto final. Sem escândalos.
Chegando ao motel, ela pediu que eu estacionasse em frente. Perguntou se seria possível esperar alguns minutos ali, dentro do táxi. Disse que me recompensaria a gentileza. Depois de me certificar que ela não estava armada e que não me meteria em confusão, concordei em aguardar.
Os primeiros momentos foram constrangedores. Logo, porém, ela desatou a falar.
Disse que seu marido a estava traindo. Que sua mãe a tinha alertado desde o princípio, mas que ela julgava tratar-se de implicância de sogra e genro. Por fim, decidiu contratar um detetive - o homem com quem falara ao telefone. Ele garantiu que o marido dela tinha entrado com uma mulher naquele motel.
E ali estávamos nós, em uma cena que, creiam, é mais comum do que se imagina.
Quando o carro do marido surgiu no portão, ela o interpelou. O homem, atordoado, desceu do automóvel e fez menção de abraçar a mulher, que chorava compulsivamente. Depois, parece ter-se arrependido, embarcou novamente no carro e saiu em disparada, deixando minha passageira abandonada na calçada.
De volta ao táxi, perguntei para onde ela queria que eu a levasse, para a casa da mãe, talvez. Foi quando ela revelou o que a tinha deixado tão abalada:
A mulher que estava no carro com o marido dela era, justamente, a sua mãe!

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18.2.08

O barulhinho no táxi
Um barulhinho apareceu no táxi do Pitoco. Um barulhinho de nada, besta, quase imperceptível. É que taxista passa o dia todo no carro. Amanhece, dorme, come no carro. Acaba sendo parte do carro, sentindo qualquer vibração estranha, qualquer alteração que o carro apresente. Qualquer barulhinho. Mesmo o mais besta.
Pitoco não era de dar bola para essas coisas, continuou trabalhando normal. O barulho parecia vir da suspensão, como uma borracha gasta ou algo assim. Cada vez que torcia a direção para a esquerda, o barulhinho aparecia. Um estalido chato, persistente, repetitivo. Somente quando virava para a esquerda.
Ao passar na oficina para revisar a geometria, Pitoco pediu que o mecânico procurasse o problema. Nada. Nem sinal do barulho. Pitoco saiu encucado. Que diabos estaria provocando aquele estalido? Resolveu procurar outro mecânico. Nova inspeção e nada de anormal detectado no táxi.
O barulho começou a tirar Pitoco do sério. Um plequepleque chato, agudo. O som parecia bater bem dentro da cabeça do taxista. Parecia que todas as curvas da cidade eram para a esquerda. Todas as ruas que Pitoco dobrava eram para esquerda. Se ele perguntava para o passageiro que direção tomar: esquerda. E pleque!
Cada vez que iniciava um giro do volante, Pitoco preparava-se para o barulho. Semicerrava os olhos, apertava com mais força a direção, prendia a respiração. Sofria por antecipação, aguardando o pleque. E depois do pleque sofria mais ainda. Uma tortura.
O caminhão parou de repente. Pitoco vinha em alta velocidade. Vinha pela pista da direita, junto ao meio-fio. Não adiantava frear. A única saída seria desviar o táxi para a esquerda.
Pitoco morreu com grande estardalhaço, mas sem o pleque.

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11.2.08

Receita de omelete ambulante
O Jovita era um motorista que costumava tirar folgas nos táxis do meu ponto. Era um sujeito querido, mas tinha um problema grave: vivia dormindo. Há quem diga que ele dormia até em pé, encostado nas paredes.
Certa vez, trabalhando no carro do Zé Barriga, Jovita pegou uma corrida para a praia de Tramandaí, no Litoral Norte. O passageiro era um distribuidor de ovos, cujo carro havia estragado. Jovita, então, encheu o táxi com as caixas de ovos e se largou para a praia.
Quase chegando a Tramandaí, Jovita dormiu na direção e caiu no fosso que divide as pistas da Freeway. Saltando pra lá e pra cá, o táxi virou uma batedeira gigante. Jovita acordou com os solavancos e com os ovos voando para todo o lado. Por sorte, o carro, sem grandes avarias, acabou se acomodando entre umas macegas.
Rebocado para Tramandaí, o táxi ficou preso no pátio do Detran. Só o proprietário poderia retirá-lo. Jovita ligou para o Zé Barriga, contou sobre o ocorrido, deu o endereço do depósito onde o carro estava e voltou para Porto Alegre. Não falou nada sobre os ovos.
Como o acidente foi numa sexta-feira à tarde, só na segunda Zé Barriga conseguiu liberar o veículo. Era verão, fazia muito calor. Depois de pagar todas as taxas, finalmente ele recebeu autorização para retirar o táxi, que havia passado o fim de semana todo no sol.
Já no portão do depósito, podia-se sentir um cheiro estranho no ar. Com a chave na mão, Zé Barriga caminhou apressado em direção ao seu querido veículo. Precisava tirá-lo logo daquele sol. À medida que se aproximava do táxi, o cheiro de podre aumentava.
O carro, como Jovita relatara, não tinha mesmo grandes estragos. Estava apenas muito sujo: as rodas estavam embarradas e os vidros tinham uma estranha gosma amarela. E aquele cheiro de podre aumentava a cada passo que o Zé dava em direção ao seu táxi.
Jovita nunca mais apareceu aqui pelo ponto. Está jurado de morte pelo Zé Barriga.

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4.2.08

Tipos de passageiros
O atrasado. O passageiro atrasado chega ao ponto correndo, olhando para o relógio. Logo que embarca, faz questão de ressaltar que está muito atrasado (caso o taxista não tenha notado). Ele costuma dar sugestões na forma de dirigir:
- Vá pela direita, vá pela esquerda, olhe aquele caminhão lá na frente, vá pra outra pista.
Costuma fazer comentários do tipo:
- Esse teu motorzinho é mil cilindradas?
Mesmo que o taxista corra, fure sinais, pule canteiros, o passageiro atrasado não costuma ter tempo para dar gorjetas.
O desconfiado. Taxistas, em geral, têm péssima reputação. Muitos passageiros, por exemplo, fazem questão de dar o itinerário - o desconfiado sempre acha que o taxista fará turismo com ele. Alguns desconfiados chegam a conferir o lacre do Inmetro no taxímetro. Tem também os que perguntam se o táxi usa gás, se não tem perigo de explodir.
O estressado. Esse tipo de passageiro nem te cumprimenta, já entra no táxi reclamando do clima. O estressado, mesmo não estando ao volante, costuma xingar os outros motoristas - caso o taxista receba uma fechada, o próprio estressado taca a mão na buzina. Baixa o quebra-sol, regula o banco, abre e fecha a janela. Esse tipo de passageiro precisa de movimento. Taxistas calmos os deixam ainda mais estressados.
O confidente. Muitos passageiros sentem-se à vontade para desabafar com taxistas. Há muitos anos, um homem embarcou angustiadíssimo em meu táxi. Precisava contar a alguém o que estava se passando com ele. Tinha saído de uma clínica, na qual sua cunhada havia feito um aborto. Os dois haviam tido um caso e ela engravidara. Depois de anos de casado, não conseguia ter filhos com sua mulher, mas tivera que pedir à cunhada que abortasse.
O fato de falar com uma pessoa que, provavelmente, jamais veria de novo na vida, ajudou-o a desabafar. Dia desses, ele embarcou no meu táxi. Não lembrou de mim. Eu preferi não falar nada. Até porque ele estava em um papo animado com o filho.

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